Contos da Cidade

por Daniel Arcos


Uma série de contos onde histórias aparentemente independentes estão todas interligadas de alguma forma.

Em breve o e-book completo estará à venda em nossa loja. Enquanto isso, curta três contos disponíveis aqui no site.

 


A ESTÁTUA

 

Ela tinha mais ou menos o tamanho de uma pessoa normal, nem alta nem baixa. Além da parte de baixo que era um tipo de base quadrada e que deixava a dita cuja com alguns centímetros a mais. La Gioconda de Dalmo era seu nome. Uma estátua. Feita do mais frio mármore, foi encomendada por um ricaço italiano a um escultor excelente, mas bem pouco conhecido. Dizem que o pobre era afeito às drogas e por isso não se destacava no cenário artístico. Tudo mentira. Se fosse assim mais da metade dos artistas desse planeta não teria destaque nenhum. Mas vamos voltar à La Gioconda. Estátua belíssima cheia de detalhes, anatomia perfeita, proporções tão corretas que nem parecia que antes aquilo tudo era um bloco de pedra. Se recebesse a cor adequada era capaz de ser confundida com uma linda mulher posando para uma foto no meio do museu.

Ela chegou ao museu no ano passado e foi colocada em um lugar de destaque entre a área da idade média e área do império romano. Eu sei, não faz sentido, mas o lugar era bom, tinha uma luz que vinha da claraboia central depois do meio da tarde que batia direto na estátua e ela brilhava como uma estrela. Era um espetáculo!

Me desculpem, eu não me apresentei, meu nome é José Firmino da Silva, o pessoal geralmente me chama de Firmino. Eu sou vigilante no museu de história natural aqui da minha cidade. Eu gosto de trabalhar aqui porque aprendo muito. Eu gosto de estudar e recentemente terminei o segundo grau. Depois de velho, né, mas a gente começa a trabalhar cedo e aí já viu. Para de estudar. Mas não tem problema, ano que vem começo na universidade, quero ser historiador. Mas isso não importa agora. Vamos voltar pra estátua.

Eu tava fazendo a ronda de rotina e era bem naquela hora em que a luz do sol iluminava a bela Gio (intimidade com uma estátua, onde já se viu?!). Eu vinha passando por ela, parei, olhei fixamente e fiquei ali hipnotizado por ela. Foi então que aconteceu. Eu escutei um soluço. Olhei para todos os lados e não vi ninguém. Outro soluço. Ninguém ao redor. Terceiro soluço. Dessa vez eu gelei. Eu só poderia estar ficando maluco. A estátua estava soluçando. Eu me afastei assustado, aquilo só podia ser coisa do demo. Eu comecei a rezar como um maluco, misturava país nossos com Ave Marias sem nem saber direito o que dizia. Naquela hora o museu já tinha fechado e nem mais o pessoal da limpeza estava lá. Tinham saído mais cedo justo naquele dia.

Eu não sabia o que fazer, a estátua não parava de soluçar e eu não tinha coragem de chegar perto e também não tinha coragem de chamar ninguém porque iam achar que eu estava bêbado ou drogado. E aí, o que você faria no meu lugar?

 

Bom, eu não tinha o que fazer. A mulher, digo, estátua, não parava de soluçar, mas pelo menos era só isso. Eu comecei a me acalmar e observá-la de longe. Apesar da impressão que eu tinha de que ela ia me pedir um copo d'Água para cessar o soluço.

“Que é isso homem, deixe de ser cagão e vá ver o que está acontecendo!” - eu repeti essa frase pra mim mesmo várias vezes durante dez minutos, mas não movia nenhum dedo em direção a ela.

Agora, veja bem, um cara como eu, vivido, pai de família, religioso, tantos anos de trabalho como vigia, não tinha coragem de conferir uma besteira dessas, eu me senti um frouxo. Foi nessa hora que dei um pulo e levantei rápido. Estava decidido a acabar com esse mistério maluco. Mas pensem na minha surpresa ao perceber que a bicha não soluçava mais?!

Eu cheguei perto dela e não saia mais nada. A maluquice só podia ter tomado conta da minha cabeça. Eu tive uma tia-avó que foi parar em um manicômio quando tinha mais ou menos minha idade. O povo da cidade dizia que a velha subia nos telhados das casas e cacarejava como um galo. Sim, galo. Não me pergunte porquê, cada louco com sua mania. Enfim, o fato é que La Gioconda não soluçava mais. Nessa hora tive que jogar os pudores pro alto, pedi licença para a senhorita de pedra e revistei a moça da ponta da cabeça aos dedões dos pés.

Claro que não achei nada. Parei de frente pra ela, bem de perto, e fiquei encarando.

De repente a louca agarrou meu braço! Gente, ela tava viva, me segurou forte com aquela mão de pedra e não soltava por nada. Eu gritei feito uma criança, mas não tinha ninguém pra me salvar. E aí a estátua falou:

- Acorda, Firmino! Cadê meu copo d'Água??

Nessa hora eu acordei com a dona Gertrude segurando meu braço e a estátua congelada como tinha que ser bem na minha frente. Dona Gertrude é a gerente geral do museu, uma senhora de bom coração, mas muito rígida em seu trabalho.

- Você dormiu de novo, Firmino? Não tá tomando seus remédios?

- Desculpa, senhora! Devo ter esquecido, a senhora ainda quer a água? Ainda está soluçando?

- Não, já passou, agora vá tomar seu remédio. Essa sua narcolepsia é um perigo nesse lugar.

- Sim, senhora, vou agora mesmo!

Dona Gertrude saiu e me deixou só com a estátua. Sim, eu tenho narcolepsia e isso às vezes gera alucinações. Tipo sonhos. Acho que esqueci de tomar o remédio desde ontem. Agora vou ter que tomar pra memória também.

Antes de sair dali, dei uma última olhada pra ela pra ter certeza que não estava soluçando. Nada. Dei uma piscadinha pra La Gioconda… Ela piscou de volta pra mim!

Meu Deus, vai começar tudo de novo!

 

------ Fim? ------

 

 

 

 

POST IT

 

Naquele dia eu estava bem mal. Cansado, quebrado, triste, gordo… sim, gordo. Eu havia ganho treze quilos no último ano desde que a Dora me deixou. Eu não tinha força pra mudar aquela situação. Me tornei um cara ranzinza e isso me deixava ainda pior. Já tinha feito tudo que podia pra mudar. Até comecei a fazer terapia na esperança de que alguém pudesse me ajudar a resolver as "coisas" dentro de mim. A doutora Carla tentava de tudo. Ela era uma mulher bonita, por volta dos 45 anos, cabelos cor de mel, olhos verdes, usava um óculos que a deixava extremamente intelectual. Em nossa última consulta, eu parei de ficar prestando atenção só na beleza dela e escutei algo que me pareceu importante. Ela disse:

 

- Otávio, você é uma homem de 37 anos, ainda é jovem, sua vida não acabou só porque a Dora te deixou. O que você quer pra você? Onde você quer estar em alguns anos? Pense nisso e me responda na próxima consulta, ok?

 

Até agora essas perguntas estão martelando na minha cabeça. Mas, eu precisava trabalhar e assim que cheguei fui até a copa tomar um café com o pessoal. Eu entrei, fui até os armários de madeira antigos e peguei uma caneca de louça branca com a marca do museu impressa. Coloquei o café e comecei a beber olhando pro nada. Nessa hora entra o Firmino porta a dentro.

- Bom dia, Otávio!

- Bom dia, Firmino!

 

Firmino era um cara exemplar. Tinha um problema grave de narcolepsia que fazia com que as vezes o encontrássemos dormindo em pé com um esfregão na mão. Mas fora isso ele era um cara extremamente dedicado.

- Você tá bem, Ota?

- Não sei, Firmino…

- Rapaz, você é muito novo. Precisa sair dessa. Já tá há muito tempo assim.

- Firmino, a doutora Carla me fez uma pergunta e eu tô com ela na cabeça até agora sem resposta. Vou fazer a mesma pergunta pra você, pode ser?

O Firmino pegou um copinho de café e se virou pra mim. Ele parou e me olhou fixamente. Eu disse:

- O que você quer pra você? Onde quer estar daqui a alguns anos? - Ele respondeu de pronto:

- Eu quero estar formado em história, fazendo um mestrado, dando aulas e trazendo meus alunos aqui no museu.

 

A resposta dele foi tão imediata que eu fiquei sem ação. Eu já sabia dos planos dele e nem me lembrava. Eu agradeci e sai da copa. Atravessei dois corredores do museu em direção a minha sala. A porta já estava destrancada, mas não havia ninguém dentro. Achei estranho a janela estar aberta porque fazia frio e ventava naquele dia. Fechei a janela, fui até a minha mesa e vi um post it amarelo pregado nas minhas coisas. Tinha algo escrito e eu peguei pra ver.

 

“Eu te amo, mas não tenho coragem de dizer pessoalmente”

 

Fiquei olhando para aquele papel por dois minutos tentando entender. Até que caiu a ficha. Minhas mão gelaram na hora. Alguém ali estava apaixonada por mim? É isso? Seria possível? Mas, eu engordei tanto, tô sempre com cara de sono, barba por fazer? Como isso é possível?

 

Eu guardei o post it e sentei no meu lugar esperando as pessoas chegaram. Em minha sala somos apenas cinco pessoas trabalhando. Resolvi observar e ver quem poderia ser.

 

O primeiro a entrar foi o Júlio. Depois a Martinha e a Dani, por último o Marcos. Eu descartei os caras, é claro. Minha atenção estava totalmente voltada para a Martinha e a Dani.

 

As duas eram jovens, bonitas e inteligentes. A Martinha era ruiva, tinha os olhos bem verdes, devia ter uns 26 anos e era formada em arqueologia. Ela sempre quis trabalhar em campo, mas o salário do museu ajudava sua família e seu doutorado. A Dani era uma negra linda, os olhos negros amendoados e seguros, e seu cabelo preto encaracolado era puro charme. Ela era mestra em história natural pela universidade de Yale, nos EUA.

 

Por mais de quarenta e cinco minutos nenhuma delas olhou pra mim…

 

Em compensação, o Marcos estava mais agitado do que o normal aquele dia e achei muito estranho quando ele levantou e veio até a minha mesa.

- Ota, eu preciso te dizer uma coisa… eu deixei um post it…

 

Quando a palavra post it foi pronunciada eu perdi o controle das minhas pernas que saltaram como se tivessem molas e bateram com tanta força na mesa que todas as minhas coisas caíram. Eu suei frio, porque não tenho nada contra a pessoa ser gay, mas eu não ia saber lidar com aquilo. Já pensei logo que teria que mudar de setor.

- Tá tudo bem, cara? Machucou aí?

- Não, beleza, tô bem!

- Deixa eu te…

- Nãããoo!! Fica aí!

- Você tá muito estranho hoje, Otávio…

 

Eu não podia segurar, aquela ideia estava me deixando maluco. Como ele pode ter confundido tanto as coisas? Eu tinha que falar.

- Olha, Marcão, eu achei o seu post-it sim, mas você tá confundindo as coisas, cara. Eu gosto de mulheres, ok? Nada contra a sua opção, mas não vai rolar.

- Tá falando do que, Otávio?

- Disso aqui…

Eu peguei o post-it sobre a mesa e mostrei pra ele. Nessa hora todos já estavam concentrados em nós.

- Eu achei isso na minha mesa agora a pouco.

- Mas, isso não é meu.

- Não?!

- Claro que não, tá maluco? Eu não sou gay e aliás eu nem estou disponível.

 

Minha cara foi no chão. Eu parecia um tomate maduro de tão vermelho. Mas foi aí que a história esquentou.

- Hei!! Isso é meu, me dá aqui!

 

A Martinha tomou o negócio da minha mão na hora. Confesso que fiquei aliviado e feliz. Eu sempre achei aquela ruiva linda. Eu já não tinha mais nada a perder, então abri o verbo.

- Uau! Eu não esperava… então, você me ama?

- Se liga, Otávio! Você é uma cara legal, mas eu não escrevi isso pra você, não! Era pro Marcos! O post it deve ter voado da minha mesa.

 

Quando escutou isso, o Marcos ficou tão branco quanto uma folha de papel. Ele não teve tempo de falar nada, porque de longe todos ouvimos a Dani esbravejar.

- Martinha, sua falsa!! Que ódio, você sabia que eu tava apaixonado pelo Marcos. Como você fez isso comigo?

- Para de falar bobagem, Dani! Eu escrevi pra ele porque esse pateta é louco por você também, mas não tem coragem de falar nada! Eu tentei ajudar os dois!

 

Mais uma vez eu não tive tempo de me manifestar. Aquilo estava parecendo uma feira, cada um queria vender mais bananas que o outro. Alguém que parecia estar distante entrou com tudo na conversa. O Júlio.

- Caramba, Dani! Mas você não falou que a Martinha gostava de mim?

- Não, Júlio! Eu falei que alguém aqui da sala gostava de você, mas não era ela, era eu!

- Uau! Sério? Ha, ha, ha! Eu também gosto de você, gata! Eu tava morrendo de medo de ser a Martinha porque eu sou louco por você e não queria magoar a mina!

 

Todos começaram a rir. No final um simples post it "voador" revelou vários segredos dentro da sala. Felizmente, tudo acabou bem. Mas…

- Legal, galera. Que bom que agora vocês podem todos ficar juntos sem confusão. Pena que esse recado não era pra mim...

 

Eu abaixei a cabeça e sentei na minha mesa. Eu estava mais triste do que antes. Não deu pra disfarçar e todos ficaram em silêncio por um tempo. Parecia que alguém tinha morrido, e no caso quem tinha morrido era a minha esperança. Até que a Dani veio falar comigo.

- Ota, eu tenho uma amiga que vai adorar conhecer um cara legal como você. Quer sair com a gente no sábado?


 

------- Fim -------



 

MATANDO SERVIÇO

 

- Hoje é dia de maldade, e nem é sexta-feira, é uma quarta, mas hoje eu vou à praia e nem quero saber de pisar na firma!

 

Prazer, meu nome é Simão e eu posso te ajudar! Esta é a forma como me apresento para meus clientes. Sou o melhor vendedor na empresa Megazine, a maior rede varejista da região. Eu sou o melhor porque tenho uma lábia sensacional, sou um vendedor nato. Meu único problema é que muitas vezes uso meu “super poder” para o mal. Não, nunca matei ninguém, mas sou um tremendo mentiroso. Daqueles que te convence a comprar gelo no polo norte.

É muito comum pra mim inventar uma história qualquer para faltar ao serviço e ir me divertir. Afinal, a vida é pra ser curtida, né? Eu já tinha ficado doente diversas vezes, já tinha matado o cachorro, já tinha salvo o vizinho de morrer asfixiado com um caroço de azeitona, já tinha salvo uma velhinha de um assalto, já tinha até inaugurado uma ponte ao lado do prefeito. Eu sou um herói, só que não.

 

Naquela quarta-feira linda, eu abri as cortinas do meu pequeno apartamento e me deparei com um dia magnificamente ensolarado. Temperatura perfeita, luz perfeita, e até os vira-latas na rua pareciam sorrir para aquele dia maravilhoso. Estiquei o corpo, respirei fundo e decidi que não ia perder uma maravilha dessas para passar o dia na loja.

 

Estou no auge dos meus 33 anos, me considero era um cara bem apessoado, o que facilita bem meu trabalho de vendedor. Tenho cabelos castanhos e lisos, gosto de manter a barba bem feita, tenho olhos esverdeados e, apesar de não ser nenhum bodybuilder, tenho um físico atlético. Estou sempre bem vestido e alinhado, acho que sou bom nesse lance de marketing pessoal. Aos 14 anos fui à luta e consegui ser contratado na Megazine como “aprendiz” de estagiário e com os anos fui subindo de cargos. Esperava chegar a gerente em mais dois anos e em cinco chegaria a diretoria. Eu sou órfão de pai e mãe desde os 12 e já sabia que se não fizesse algo pelo meu futuro, eu não teria futuro.

Enfim, arrumei minhas coisas para passar o dia na praia, peguei meu telefone e mandei uma mensagem para o chefe:

- Bom dia, chefe! Infelizmente não vou poder ir trabalhar hoje. Minha pobre tia Nena faleceu a noite. O senhor sabe que sou órfão e essa tia era muito importante pra mim...

 

O chefe estava online e respondeu rapidamente:

- Tia Nena? Sério, Simão? Te conheço a 7 anos e nunca ouvi falar dessa tia. Eu vi o solzão que tá fazendo hoje, vc tá querendo é praia.

 

Simão pensou um pouco antes de responder. Não imaginava que o chefe ia reagir assim porque geralmente ele não questionava seu melhor vendedor mesmo quando suspeitava que estava sendo enganado.

 Sabe como é chefe, sou muito discreto com minha vida.

 

- Discreto? Sei. - Seu Pedro era o gerente do setor em que eu trabalhava. Um senhor de 72 anos que nunca quis se aposentar.

- Pois é… Então, mas por isso não vou trabalhar hoje, ok?

- Peraí, não vai ser fácil assim dessa vez.

- Não entendi, chefia?

- Eu sou velho, não burro, Simão. Eu quero que você mande uma foto da sua tia falecida no caixão. Se quiser mande um vídeo, qualquer coisa. Mas você vai ter que provar que estava no enterro, porque se não fizer isso, eu vou te demitir por todas as vezes que me enganou e eu fiz vista grossa. Entendido?

 

Ferrou. Meu dia na praia estava indo embora com a baixa da maré. Como resolver isso agora? Ia acabar perdendo o dia todo atrás de um enterro de uma mulher com as características de tia Nena, que na verdade nem existia. Peguei minhas coisas e sai pensando.

- Vou passar no cemitério da cidade e ver se consigo algo.

 

Peguei meu carro e corri para o cemitério. Que coisa absurda, porque o chefe tinha que duvidar de mim logo hoje? Enquanto pensava resolvi ligar pro Marcos. Marcos Silveira é meu amigo mais antigo. A gente morou um tempo na rua depois que fiquei órfão. Ele sempre me ajudou muito e apesar de ser todo certinho, as vezes encobre algumas das minhas histórias. Liguei pra ele. Ele não atendeu,estava dando sinal de ocupado. Então, resolvi mandar uma mensagem, mas tinha polícia na frente. Guardei o celular rapidinho e resolvi mandar a mensagem só quando chegasse ao cemitério.

 

Quando cheguei ao cemitério haviam três enterros acontecendo. Dois ainda estavam sendo velados nas capelas, então fui primeiro acompanhar o enterro que já estava acontecendo. Haviam várias pessoas em volta do caixão. Todos muito tristes obviamente. Eu não pretendia atrapalhar o “descanse em paz” do pobre defunto, mas precisava da minha foto. Também não queria perder meu emprego por causa de uma mentirinha dessas. Parei ao lado de um senhor e disse:

- Que pena não é? Era uma pessoa tão boa.

- É verdade… - respondeu ele cabisbaixo.

- Tinha quantos anos mesmo? -  Eu ainda não tinha visto a pessoa, nem sabia se era homem ou mulher, precisava descobrir. Já tinha perdido tempo demais.

- Estava com 87, o pobre homem.

 

Droga. Era um homem que estava ali. Eu sabia que seria difícil e fiquei mais nervoso ainda quando a primeira tentativa já deu errado. Corri para as outras duas capelas na esperança de que alguma delas fosse “a tia Nena”. Não, gente, eu não queria a morte de ninguém, mas eu não tinha escolha, agora eu tinha que validar a minha história. 

 

Cheguei correndo à primeira capela, estavam todos orando em voz alta. Acho que o morto devia fazer parte de alguma igreja pentecostal, pois a única palavra entendível na gritaria das orações era “aleluia”! Aproveitei que todos estavam de olhos fechados orando fervorosamente e me aproximei do caixão. Nesse movimento rápido, tropecei em um tecido que enfeitava o local e o movimento brusco fez o meu celular voar da minha mão. O dia que as coisas tem que dar erradas, elas vão dar erradas. Meu celular caiu dentro do caixão. Dez palavrões vieram a minha mente e eu não podia soltar nenhum alí.

 

Na mesma hora o silêncio tomou conta da capela. Eu estava lá bem no meio e todas aquelas pessoas olhando pra mim sem entender. Eu não tinha como pegar a droga do celular e quanto tentei me aproximar alguns homens vieram com a tampa do caixão para fechá-lo. Eu não tinha mais o que fazer, tava ferrado mesmo. O chefe ia me demitir. Sai correndo de lá e fui até o primeiro orelhão. Por sorte, havia uma barraquinha de flores ao lado que vendia cartões telefônicos. Depois de me dizer que ninguém mais comprava aquilo o dono da banquinha me vendeu o último cartão. Liguei para o Marcos, chamou algumas vezes e ele finalmente atendeu.

- Mano do céu, tô ferrado!

- O que foi que houve, Simão?

- Cara, eu tô no cemitério e…

- Meu Deus, quem foi que morreu??

- Calma, ninguém morreu e…

- Ufa!! Que susto, como você me liga e começa a conversa assim?

- Cala a boca e me escuta, tô ligando de um orelhão porque meu celular caiu em um caixão…

- O que???? Tu bebeu, maluco?? Que história é essa?

- Cara, meus créditos vão acabar, me escuta, eu preciso da foto de uma mu… tzzz... em um … tzzz... bem bonito e como estou sem celular eu preciso que… tzzz...mande ela pro Seu Pedro, o meu chefe, enten… tzzzz?

- Entendi... tzzz… de boa, consigo fácil… deixa comig...tu… tu… tu…

 

A ligação falhou, falhou, gastou todos os meus créditos e caiu, mas perece que ele tinha entendido. Ufa!!! Se tinha uma pessoa que eu podia confiar era o Marcos. Ele trabalha no museu da cidade e é um cara super responsável e inteligente. Assim como eu ele ralou muito pra chegar onde está. Se formou em história natural, fez doutorado em Egiptologia, e a pouco tempo começou a namorar com uma colega do trabalho tão inteligente quanto ele, a Martinha.

 

Tudo resolvido, fui a praia e curti bem o dia. E que dia! Aquele sol, aquele mar, futebol com a galera, a paquera rolando. Valeu a pena a mentira e a correria. Na volta pra casa, passei em uma loja e comprei um celular novo, afinal o velho “bateu as botas”. Como eu tinha tudo na nuvem, não tive problemas em recuperar todas as minhas informações.

 

Abri minhas mensagens e fiquei branco como o defunto que levou meu celular velho para o túmulo. Tinha uma mensagem do Seu Pedro, meu chefe:

- Simão você é um sem vergonha. Mas, apesar desse mentira descarada eu vou te dar uma chance. Você não vai ser demitido, mas agora vai trabalhar no marketing. Porque mesmo sendo um tremendo mentiroso, você fez toda a empresa rir muito quando pediu ao seu amigo que me mandasse a foto da múmia do museu da cidade.

 

------- Fim -------

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